GRÃO DE AREIA

Partida e Despedida

Posted in Pessoal by Artemisa on 25 de Agosto de 2010

Porque é que as despedidas são sempre tão difíceis?

Hoje despedi-me de quem mais quero, um “até ao Natal, vá passa depressa, daqui a pouco já lá estamos”…

Mas os dias continuam a ter as mesmas 24 horas, as horas os mesmos 60 minutos e os minutos os mesmos 60 segundos!

Queremos sempre estar perto de quem amamos porque lhes podemos valer se algo acontecer, porque nos sentimos mais protegidos, porque sabemos que nem sempre contam, contamos tudo… a distância traz a preocupação, às vezes à toa, outras nem por isso!

Quem está longe, ainda que no seu país, é sentimentalmente emigrante pois a hora da partida é marcada pelo pensamento de quando se irá regressar e hoje foi esse o meu pensamento…

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Amores Singulares

Posted in Pessoal by Artemisa on 1 de Junho de 2010

“Foram uns amores singulares, aqueles.

No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos.

Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

– Não dás um ramo, ó Coiso?- perguntou do caminho a rapariga.

– Dou, dou! Anda cá buscá-lo.

Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

– Não estás de caçoada?

– Falo a sério!

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

– Olha que aceito!

– E eu que estimo… -Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

– Não teimes muito …

– Valha-me Deus! …

A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha.

– Segura lá na abada… -Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

– Terão bicho?

– Têm agora bicho! Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

Sem querer, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

– Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei…

À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

– Segura lá esta pinhoca…

Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

– Que lindo! É para que saibas… Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

– Cautela!

– Não há perigo. No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

– Queres mais?

– Não, bem hajas…

Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira.

– Adeus!…

O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena ele ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim. Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.

– Que diz vossemecê? -perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.

– A mim agrada-me… É boa rapariga, e limpa, é jeitosa…

– Lá isso… Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.

Fala à gente! Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.

– Ainda não lhe falaste em nada? Indagava a Teodósia, insárida.

– Não. Mas amanhã…

– Ou quererás tu antes que eu lhe diga … ?

– Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!

Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento. Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.

– O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo… -começou a Natália, à saída da missa.

– Ah, sim? E depois? -perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.

– Pediu-me namoro… -deixou ela cair com melancolia.

Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.

– Bem, tu é que vês… Ele não é mau rapaz…

Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.

– Eu queria lá um farçola daqueles! Estou muito bem assim…

Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.

A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:

– Sabes o que me disseram hoje na fonte?

– Que a Natália tem namoro com o João Neca… -respondeu, vencido.

– Nem mais.

– Pois tem…

– Já sabias?! Então… e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?

– Eu sei lá o que foi…

Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.

– Casam-se para a semana… -ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.

– Já sei. O padre leu hoje os banhos…

– Pois leu…

Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.

– Morria por ti!

Disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três, e se transformara num pesadelo. Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.

– Também eu gostava dela… Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.”

Miguel Torga, Destinos, Novos Contos da Montanha

Mais um Junho…e continua sempre a faltar qualquer coisa…

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Elogio ao Amor Puro – Miguel Esteves Cardoso

Posted in Notícias by Artemisa on 18 de Março de 2010

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”.
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e
da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso, in Jornal Expresso

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