GRÃO DE AREIA

Os Burros

Posted in Notícias, Pessoal by Artemisa on 10 de Julho de 2010

Atenção a quem da próxima vez chamar burro a alguém🙂

“Os burros são animais sociais. A um grupo de burros chama-se “burrada”. São animais que possuem uma estrutura social flexível, isto é, nenhum dos membros do grupo é dominante a título permanente. Os machos lutam pelas fêmeas em estro (corresponde ao cio nos machos). São animais de temperamento dócil, forte e muito inteligentes, que não perdem a sua integridade e personalidade no contacto com os humanos. Segundo alguns especialistas, comparando com a espécie humana, comportam-se como uma criança inteligente de 5/6 anos.
Embora os burros sejam animais independentes, a companhia das pessoas é fundamental e rapidamente criam laços afectivos fortes com os humanos, se lhes for dispensada a atenção de que necessitam.

Uma das teorias aceites sobre a filogenia dos asininos domésticos, diz-nos que estes se dividem em dois grandes grupos:
• O tronco europeu, Equus asinus europeus, provavelmente com origem mediterrânea;
• O tronco africano, Equus asinus africanus, proveniente da bacia do Nilo.

Segundo alguns autores, o burro (E. asinus) terá sido domesticado antes do cavalo. Os vestígios mais antigos de asnos domésticos remontam ao final da idade de Bronze e procedem do Egipto. Na Europa admite-se que a sua chegada tenha ocorrido no quinto milénio antes de Cristo, tendo-se expandido por todo o continente até à idade antiga clássica.
A domesticação do burro com o consequente surgimento e expansão do tronco europeu, da sub-espécie, E. a. europeus, terá ocorrido devido à utilização desta espécie para alimentação humana, produção de híbridos e mais tarde para os serviços de carga e transporte. Uma característica interessante deste período de maneio primitivo era a utilização unicamente de burras e não garanhões, sendo a reprodução assegurada através da cobrição com o garanhão selvagem.
Como já foi referido anteriormente, a sub-espécie E. a. europeus correspondente ao tronco europeu da espécie (E. asinus) terá sido precursora da maioria das antigas raças europeias.
De acordo com as condições orográficas, climáticas e ecológicas existentes no Continente Europeu terão surgido diferentes variedades de burro de acordo com os distintos propósitos dos criadores de cada região geográfica.
Através do processo de domesticação surgiram algumas das principais raças actualmente existentes na Europa. São exemplos: a raça Catalã; a raça Zamorano-Leonesa (Espanha); a raça Piamonte, Sardenha e Sicília (Itália); a raça Poitou e Gasconha (França).
Por sua vez a sub-espécie E. a. africanus terá originado algumas raças existentes na Europa, caso da raça Andaluz e Cordovesa (Espanha).

O burro está associado a um vasto património de importância social, cultural, económica e ecológica.
Os asininos foram um pouco por todo o mundo tradicionalmente muito utilizados na agricultura. Em algumas zonas do planeta ainda o são.
No Planalto Mirandês as populações das aldeias vivem à base de uma agricultura familiar de subsistência, retirando dela produtos de grande qualidade. É uma agricultura que se faz em propriedades pequenas onde se cultiva pimentos, cebolas, couves, alfaces, batatas, feijões, etc. Na cultura das hortas, os asininos têm a vantagem de exercer uma menor compactação sobre os solos, por serem mais leves que as restantes espécies utilizadas na lavoura. Adicionalmente permitem uma mobilização do solo mais próxima da planta, sem a danificarem.
Ainda nos dias de hoje, os asininos dão uma resposta eficaz às necessidades de transporte das pessoas, e da comida para o gado – transporte a dorso -, são utilizados para lavrar a vinha, preparar e verificar o estado das terras, para semear e arrancar batata. Desempenham também a importante função de fazer companhia aos seus donos, e são às vezes o único pretexto para o idoso sair de casa, pois é preciso ir pôr a burra a pastar (a maior parte das pessoas possui burros fêmea).

São inúmeros os benefícios socio-económicos associados ao burro. Actualmente, no nosso País, ainda existem profissões ligadas ao gado asinino, tais como: a de Albardeiro – aquele que faz albardas, cabeçadas, etc.; a de Ferrador – aquele que ferra e arranja os cascos; a de Tecelão – aquele que também tece alforges. No passado algumas das profissões ligadas aos asininos eram: a de Aguadeiro – aquele que vendia água ou a levava ao domicilio; a de Almocreve – aquele que alugava e conduzia bestas de carga, entre muitas outras.
O artesanato esteve desde sempre ligado ao gado asinino:
– na cestaria, existem os cestos esterqueiros e as cangalhas;
– as albardas, os alforges e as mantas de retalhos são, sem excepção, verdadeiras peças de artesanato.
O burro está também associado a inúmeros eventos culturais. São exemplos, as feiras ligadas ao gado asinino, e.g. Feira do Naso, próximo da aldeia da Póvoa e Feira dos Gorazes, na vila de Sendim (Concelho de Miranda do Douro), e Feira do Azinhoso (Concelho de Mogadouro), exposições, gincanas, corridas e concursos.
Existem alguns produtos derivados directamente do burro. A sua carne por exemplo é considerada muito dura (embora esta opinião não seja unânime), mas no entanto é consumida por muitos povos, simples ou sob a forma de enchidos.
O leite de burra é largamente procurado em muitas regiões pela indústria alimentar e cosmética. Em Portugal, o leite da fêmea asinina foi muito utilizado pelas populações rurais, sendo inclusive receitado pelos médicos às mulheres que não conseguiam amamentar, por ser um leite parecido com o que é produzido pelos humanos para alimentar os recém-nascidos. É um leite denso e açucarado. Também era tido como bom cicatrizante, aplicando-se em pomada nas feridas e doenças de pele. A sua pele dura e elástica tem numerosas aplicações, nomeadamente na fabricação de crivos, calçado, tambores, correias, sacos, tendas (usadas pelos nómadas árabes), etc. E já houve em tempos remotos, quem utilizasse os ossos de Burro para fazer instrumentos musicais (flautas).
O ecoturismo e as actividades lúdico-terapêuticas assistidas por burros são nos nossos dias duas das mais promissoras áreas ligadas à utilização dos asininos. É importante realçar, que o ecoturismo faz todo o sentido se o meio rural e as suas gentes mantiverem as actividades que lhes são características, o seu sustento e as suas tradições.
As actividades lúdico-terapêuticas assistidas por burros, para pessoas com necessidades especiais merecem destaque, pela sua importância terapêutica, ética, social e como potencial ecoturístico.

Na vertente agrícola/ecológica, o excremento de burro, juntamente com a palha utilizada na cama dos animais, faz um excelente elemento fertilizador das terras, o estrume, para as hortícolas, pimentos, cebolas, alhos, etc., cogumelos e flores. A utilização de estrume dos animais evita que se usem fertilizantes de síntese, promovendo uma agricultura mais ecológica. Os asininos evitam o avanço dos matos incultos, cuja presença descaracteriza a paisagem rural e facilita a propagação dos fogos.
Os asininos também têm aptidão para o pastoreio, fundamental para a preservação dos lameiros (prados e pastagens espontâneos), que se degradam caso não sejam pastoreados e/ou cortados. Os lameiros permitem a conservação de muros de pedra e sebes vivas, estas últimas constituídas por espécies autóctones (espécie que ocorre de forma natural numa dada região) como por exemplo, o Freixo-de-folhas-estreitas (Fraxinus angustifolia), e que servem de limite ao lameiro. Os muros de pedra e sebes têm um elevado interesse para a conservação de fauna selvagem, pois servem de abrigo e de local de reprodução a numerosas espécies importantes no controlo de pragas agrícolas.
No Nordeste Transmontano, o importante papel desempenhado pelo burro não se esgota com a sua morte. Assim, os cadáveres de asininos (e de outros equídeos), após ser verificada a sua condição sanitária por um Médico Veterinário, são transportados para um dos alimentadores de abutres autorizados no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), onde se alimentam as aves necrófagas (animais que se alimentam dos cadáveres de outros animais) que nidificam nesta área protegida, e.g. Abutre do Egipto (Neophron percnopterus), Grifo (Gyps fulvus).
A certificação dos cadáveres pelo Médico Veterinário é fundamental para prevenir a transmissão de doenças na cadeia alimentar, ou pelo perigo causado pelo envenenamento dos animais que servem de alimento às espécies do topo da cadeia alimentar, e.g. abutre, lobo etc. É o Médico Veterinário quem decide se o cadáver do animal está ou não em condições de ser consumido por outras espécies, sem causar efeitos negativos.
Os abutres, como todos os animais necrófagos, desempenham um papel importantíssimo na cadeia alimentar, limpando os cadáveres dos animais e os excrementos, que de outro modo se acumulariam provocando mau cheiro e aumentando a probabilidade de transmissão de doenças no meio natural. Numa área protegida (PNDI) em que a disponibilidade alimentar para estas aves necrófagas não é assim tão grande, os cadáveres de equídeos, e.g. burros, têm a nobre e importante função de contribuir para a sua sobrevivência.”

Para mais informação, clique aqui.

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4 Respostas

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  1. Artemisa said, on 10 de Julho de 2010 at 23:39

    Nem mais😀

  2. MB said, on 10 de Julho de 2010 at 23:35

    pois…. a proxima vez que quiser ofender alguém exclamo: és mesmo humano!!😀

  3. Artemisa said, on 10 de Julho de 2010 at 23:31

    Pode ser ofensa, sim…mas para o burro!

  4. MB said, on 10 de Julho de 2010 at 22:44

    Então chamar burro a alguém não é ofensa… bem pelo contrario! é elogiar a integridade e personalidade própria de alguém!😀


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