GRÃO DE AREIA

Amores Singulares

Posted in Pessoal by Artemisa on 1 de Junho de 2010

“Foram uns amores singulares, aqueles.

No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos.

Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

– Não dás um ramo, ó Coiso?- perguntou do caminho a rapariga.

– Dou, dou! Anda cá buscá-lo.

Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

– Não estás de caçoada?

– Falo a sério!

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

– Olha que aceito!

– E eu que estimo… -Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

– Não teimes muito …

– Valha-me Deus! …

A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha.

– Segura lá na abada… -Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

– Terão bicho?

– Têm agora bicho! Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

Sem querer, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

– Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei…

À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

– Segura lá esta pinhoca…

Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

– Que lindo! É para que saibas… Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

– Cautela!

– Não há perigo. No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

– Queres mais?

– Não, bem hajas…

Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira.

– Adeus!…

O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena ele ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim. Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.

– Que diz vossemecê? -perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.

– A mim agrada-me… É boa rapariga, e limpa, é jeitosa…

– Lá isso… Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.

Fala à gente! Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.

– Ainda não lhe falaste em nada? Indagava a Teodósia, insárida.

– Não. Mas amanhã…

– Ou quererás tu antes que eu lhe diga … ?

– Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!

Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento. Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.

– O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo… -começou a Natália, à saída da missa.

– Ah, sim? E depois? -perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.

– Pediu-me namoro… -deixou ela cair com melancolia.

Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.

– Bem, tu é que vês… Ele não é mau rapaz…

Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.

– Eu queria lá um farçola daqueles! Estou muito bem assim…

Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.

A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:

– Sabes o que me disseram hoje na fonte?

– Que a Natália tem namoro com o João Neca… -respondeu, vencido.

– Nem mais.

– Pois tem…

– Já sabias?! Então… e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?

– Eu sei lá o que foi…

Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.

– Casam-se para a semana… -ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.

– Já sei. O padre leu hoje os banhos…

– Pois leu…

Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.

– Morria por ti!

Disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três, e se transformara num pesadelo. Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.

– Também eu gostava dela… Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.”

Miguel Torga, Destinos, Novos Contos da Montanha

Mais um Junho…e continua sempre a faltar qualquer coisa…

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