GRÃO DE AREIA

Dia Europeu dos Parques Naturais – Espécies Invasoras na Madeira

Posted in Escola, Notícias by Artemisa on 24 de Maio de 2010

Segundo dados da União Internacional da Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, quase 12% da superfície terrestre beneficia actualmente de protecção ambiental, tendo o estatuto de parque nacional, reserva natural, área de paisagem protegida ou outro semelhante. O seu principal objectivo é diminuir o impacto das actividades humanas para salvaguardar os habitats naturais e a continuidade das espécies.

As áreas protegidas em Portugal e nos arquipélagos da Madeira e Açores já foram alvo de um outro post, pelo que não me vou alongar na repetição de informação, de qualquer forma e no dia em que se comemora o Dia Europeu dos Parques Naturais, além de se comemorar também o Ano Internacional da Biodiversidade,  não poderia deixar passar a entrevista publicada hoje, ao Jornal da Madeira do Director do Parque Natural da Madeira, Paulo Oliveira a respeito das espécies invasoras na ilha enquanto problema principal e central de conservação.

“JORNAL da MADEIRA – Este ano assinala-se o Ano da Biodiversidade. Como é que o Parque Natural está e vai comemorar a efeméride?
Paulo Oliveira – Já tive a oportunidade de dizer, um pouco a brincar e muito a sério, que para quem trabalha nesta área todos os anos são anos da biodiversidade. No concreto este é o ano ideal para aproveitar uma maior receptividade da envolvente (pessoas, media, empresas etc) para sublinharmos a importância de que se reveste a conservação da biodiversidade para o nosso bem-estar.

JM – A Biodiversidade apela a um desenvolvimento sustentado. Acha que é isso que acontece na Madeira? Porquê?
P. O. – A Madeira tem sabido preservar a sua biodiversidade numa perspectiva de desenvolvimento sustentado. O grande exemplo disso é a utilização turística que tem sido feita em áreas potencialmente sensíveis como a Laurissilva e áreas protegidas como o Garajau ou as Desertas.
Tem sido permitido o usufruto regrado desta áreas com o consequente retorno económico para os diferentes agentes envolvidos.

JM – A Madeira tem muitas espécies em extinção no território do Parque Natural? Quais e porquê? O que se deverá fazer para diminuir ou eliminar esse risco de extinção e para conservar as espécies?
P. O. – A Região não tem espécies em extinção! O que existem são algumas espécies/habitats que apresentam estatutos de conservação menos favoráveis sobre as quais incidem intensos programas de recuperação. As emblemáticas Freira da Madeira e Lobo Marinho são dois bons exemplos de espécies em vias de recuperação.

JM – O Parque Natural tem necessidade de ser redimensionado ou está bem como está?
P. O. – O Parque Natural da Madeira ocupa dois terços da Ilha da Madeira. Esta taxa de ocupação do território de uma ilha com a densidade populacional da Madeira, por parte de uma área protegida é seguramente caso único no Mundo e deverá ser mantido para bem da nossa biodiversidade, economia e bem estar.
Pontualmente existem algumas situações que podiam ser revistas o que seguramente acontecerá. Isso se se assumir como uma prioridade.

JM – As Selvagens e as Desertas fazem parte da área de Parque Natural. Como é o seu estado, atendendo aos índices de biodiversidade e conservação da natureza? Que projectos estão previstos para ali?
P. O. – Estas Reservas estão sob a jurisdição do Serviço do Parque Natural da Madeira. A biodiversidade das Selvagens e das Desertas tem beneficiado bastante com os sucessivos projectos de conservação aí implementados, dos quais se destacam os esforços de erradicação de espécies invasivas de plantas e animais.

JM – O que pode garantir, no futuro, a biodiversidade madeirense?
P. O. – A continuidade do esforço técnico efectuado com o sempre indispensável envolvimento e empenho politico, que, diga-se claramente, nunca tem faltado nesta matéria.

JM – Que papel deverá ser exercido pelos vigilantes da Natureza? Quantos são? O actual número é suficiente para acudir às necessidades?
P. O. – Os Vigilantes da Natureza são agentes de conservação da natureza. Compete-lhes divulgar, sensibilizar e acompanhar todos aqueles que exercem as suas actividades, de lazer ou profissionais, em áreas sensíveis.
Apesar de também terem uma vertente de intervenção directa na prevenção de infracções, têm um papel complementar e de apoio a outros corpos mais vocacionados para este tipo de intervenção, como seja, o Corpo de Policia Florestal. Actualmente existem 37 vigilantes no quadro, perspectivando-se o reforço deste Corpo com mais 4 elementos para breve. A dedicação e o empenho destes profissionais faz com que o número existente seja suficiente para acudir às principais necessidades.

JM – As espécies invasoras, tanto animais como vegetais, já ameaçam o ecossistema madeirense? O que se poderá fazer para contrariar essas pragas e como evitar que elas entrem no nosso território?
P. O. – As espécies invasoras são o maior problema de conservação dos nossos tempos. Globalmente afectam inúmeros ecossistemas e a Madeira não é excepção. Na vertente do combate a este problema a Região tem em curso projectos com mais de 20 anos.
Em consequência do trabalho efectuado existe um know-how na Região que não tem par no continente Europeu. O SPNM tem sido chamado a participar como consultor em múltiplos projectos que envolvem espécies de vertebrados invasores.
Uma vertente importante, no combate a este tipo de espécies, é a prevenção através da existência de um quadro legal adequado que regule a sua entrada e detenção. A legislação que regulamenta a entrada de espécies animais na Região é extremamente restrita e tem sido bem aplicada pelas diferentes entidades com competência para a sua aplicação.

JM – A Lagoa do Lugar de Baixo é um habitat privilegiado. Como é que a Região poderá valorizá-lo?
P. O. – É importante desmistificar a importância da Lagoa do Lugar de Baixo. Esta Lagoa não constitui um habitat privilegiado. No contexto dos habitats importantes existentes na Região esta lagoa não tem qualquer expressão ou importância.
A conservação desta diminuta área não tem qualquer impacto sobre nenhuma espécie com importância num contexto Europeu (ou sequer nacional). Ocorrem aí alguns indivíduos de espécies migradoras pouco usuais nestas paragens, cujo registo só tem interesse para aqueles que fazem da observação de aves o seu passatempo.
De forma objectiva a verdade é que o interesse para a conservação da natureza desta área é nulo. Por outro lado, por força das infraestruturas aí existentes e das fáceis acessibilidades que proporciona, tem um elevado potencial para a educação ambiental.
Neste enquadramento acredito que o trabalho a ser desenvolvido aí deve continuar; é por aqui que tem lugar a sua valorização.

JM – O turismo de natureza é apontado como tendo um grande futuro. Qual é a sua opinião e como é que se poderá interligar esse factor com a necessidade de proteger as espécies e os locais?
P. O. – Eu acredito que o turismo de natureza afigura-se como o grande sustentáculo económico do esforço de conservação efectuado na Região.
Se forem tomadas opções estratégicas nesse sentido é possível que este esforço seja auto sustentado sem penalizações para o utilizador, que aliás, hoje em dia já está disposto a pagar para ter acesso a estes locais privilegiados.
Eu acredito que temos que apostar num modelo de gestão baseado em áreas protegidas com elevados níveis de visitação e consequente elevado retorno económico para todos os agentes envolvidos, nos quais obviamente se incluem as entidades gestoras destas áreas. A compatibilização com a preservação das espécies e habitats é simples e passa pela criação de regras claras que definam locais onde a actividade humana regrada possa ocorrer.

JM – Para quando uma listagem completa das espécies existentes na Região?
P. O. – Esta listagem já existe (desde 2008) e resulta de um trabalho coordenado pela DR do Ambiente. Está disponível em livro e o seu download disponível de forma gratuita na internet.

JM – O Porto Santo também terá projectos de conservação? Quais?
P. O. – O grande projecto de conservação da natureza do Porto Santo começou com a criação da Rede de Áreas Marinhas Protegidas do Porto Santo e pela classificação, na ilha e ilhéus adjacentes, de duas Zonas Especiais de Conservação da Rede Natura 2000.
Os Planos de Ordenamento e Gestão destas áreas apontam para que os projectos de conservação dêem grande prioridade à recuperação de habitats através da erradicação/controlo de espécies de plantas e animais introduzidas.

JM – A Freira da Madeira, o pombo trocaz e a manta são algumas das aves que têm mecanismos de protecção. São para continuar? Que outras aves podem ser incluídas no rol?
P. O. – As espécies apontadas são só alguns exemplos daquelas abrangidas pela nossa estratégia de conservação da natureza. Penso que de uma forma global as aves são um grupo muito bem protegido na Região e não existe espaço nem necessidade para dar prioridade ao aumento da nossa intervenção neste campo. Ao nível dos vertebrados penso que um grupo que merece a nossa atenção é o dos morcegos. Aqui estamos claramente a falar de espécies que necessitam de maior atenção.

JM – Que projectos inovadores serão lançados, nos próximos anos, pelo Parque Natural?
P. O. – Eu pessoalmente gostava que a marca da inovação e da diferença viesse de projectos que conduzissem a uma conservação da natureza participada por todos e auto sustentada. É no contexto desta Visão que irão surgir os nossos próximos projectos.

JM – O que se poderá fazer mais para sensibilizar as pessoas para a protecção da natureza e para a biodiversidade?
P. O. – Enviar um convite para visitarem, numa perspectiva de lazer, as nossas áreas protegidas. Enviar um convite para usufruírem da natureza e da nossa biodiversidade. Ter uma biodiversidade rica desligada das pessoas é como ter uma biblioteca onde os livros não podem sair das prateleiras.
Não existe melhor sensibilização do que desmistificar a velha mentalidade de que por um lado está a conservação da natureza e por outro as pessoas! Se conseguirmos estabelecer uma relação directa entre pessoas e biodiversidade a protecção do nosso património natural está garantido e, só na Região, teremos cerca de 280.000 vigilantes da natureza!”

Miguel Angelo, Jornal da Madeira, 21/Maio/2010

Para informação mais detalhada poderá consultar o site do Parque Natural da Madeira, clicando aqui.

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