GRÃO DE AREIA

Urbanização e a “Litoralização”

Posted in Escola, Notícias by Artemisa on 24 de Maio de 2010

“Um lugar à janela de um avião pode fazer mais pelo conhecimento do ordenamento do território do que por perder o medo de voar. Mas, noutras latitudes, a forma arrumada das cidades não tem apenas um valor paisagístico – serve também um urbanismo sustentável, conceito que, segundo algumas opiniões, ainda está longe da realidade portuguesa. Um dos problemas é a insistente migração do interior para o litoral.

São dois fenómenos distintos, mas que concorrem para que, no futuro, o país possa ser olhado com duas extensas faixas urbanizadas viradas ao mar: uma de Lisboa à Galiza e outra de Sagres a Vila Real de Santo António. Como nota Vasco Mantas, colaborador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, a litoralização do país teve o seu grande impulso na época romana. “Criou-se uma dinâmica que vai ser difícil de contrariar”, constata. A principal desvantagem reside nos custos com a desertificação nos municípios do interior, “que têm de assegurar a manutenção de um conjunto de actividades e serviços caros para servir uma população reduzida”.

O Algarve, por exemplo, “está perdido”, sentencia o historiador, para quem o litoral alentejano ainda pode ser devidamente aproveitado, desde que sem a criação de “uma Saint-Tropez de quarta categoria, que induz um tipo de turismo em que não vale a pena apostar”. No entanto, não se mostra nada optimista com as consequências de ocupação do litoral “de Lisboa até à Corunha”.

Duas realidades

Segundo o panorama actual, grosso modo, 70 por cento da população habita ao longo da costa ocidental e apenas 30 por cento vive no interior, ao longo da fronteira com Espanha. O projecto Duas Linhas, dos arquitectos Pedro Campos Costa e Nuno Louro, registou os ritmos e paisagens destes dois lados do país, através de uma recolha fotográfica levada a cabo em duas linhas paralelas traçadas de norte a sul. O livro (com a colaboração analítica de Mário Alves, Álvaro Domingues, João Nunes, Samuel Rego e João Seixas), a par de uma exposição (que se quer itinerante), confirmou tendências, mas mostrou os riscos das generalizações. “Nem sempre a costa é mais densa e o interior menos ocupado”, comenta ao Cidades Pedro Campos Costa, acrescentando que o maior problema reside na dispersão urbanística, pois é mais rentável construir na periferia das cidades do que reabilitar nos perímetros urbanos.

O arquitecto usa a sangria de habitantes em Lisboa – à razão de 100 mil pessoas por cada década – para defender uma alteração da política imobiliária, que permita atrair de novo população para o centro da cidade, com evidentes ganhos sociais. Até porque, salienta, “existe uma consciencialização cada vez maior para os problemas económicos, ambientais e arquitectónicos” decorrentes da dispersão urbana.

Faltam cidades médias

O geógrafo Jorge Gaspar refere dois exemplos de construção contida que devem ser acompanhados: a Quinta do Conde, na margem sul do Tejo, e o Parque das Nações, na frente ribeirinha da zona oriental de Lisboa. “O Parque das Nações foi um bocado mais caro”, aproveita para ironizar o especialista do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, que esta semana proferiu uma conferência intitulada Geografia e Ordenamento do Território: Desafios e Respostas. A diferença do custo entre uma e outra urbanização traduz-se, também, na necessidade de dotar o núcleo urbano do concelho de Sesimbra de equipamentos.

A dispersão urbanística, explica Jorge Gaspar, tem diversas facetas e origens. Trata-se de um fenómeno que resulta de “uma alteração nos estilos de vida e de urbanização das pessoas”. Está associado mais recentemente a uma natureza especulativa, onde o direito de propriedade se sobrepõe à aptidão dos terrenos, mas também desde tempos mais recuados à necessidade de assegurar habitação para uma mão-de-obra industrial ou agrícola (esta mais sazonal) de determinada região. Foi assim na margem sul do Tejo, como ao longo da Linha de Sintra, para alimentar o sector dos serviços na capital. Seja como for, em ambos os casos, os custos decorrentes deste consumo desregrado de solos não se resume apenas ao desbaratar de áreas que poderiam servir para outros fins mas também ao aumento nos gastos com infra-estruturação.

Um cenário que Jorge Gaspar não se coíbe de classificar como “desastroso em todo o Algarve”. Embora seja crítico da dispersão urbanística na região algarvia e censure a aposta num desenvolvimento predador de recursos naturais, não lamenta uma maior ocupação da faixa litoral: “A desconsolação é ter um país que está litoralizado, mas que não aproveita nada do mar”. Natural, para o geógrafo, será que se retire partido do litoral, para a circulação e o comércio. Ao mesmo tempo que se devem assegurar cidades de média dimensão que proporcionem consistência económica e social ao interior.

Analisar a envolvente

A Escola de Arquitectura da Universidade do Minho, em Guimarães, tem vindo a estudar a situação crítica da realidade envolvente. Segundo Vincenzo Riso, professor auxiliar, o vale do Ave sempre se caracterizou por ser uma zona agrícola fértil, mas alcançou “um original desenvolvimento industrial”, através da instalação de unidades têxteis junto aos cursos de água. “Deste modo, ao longo do tempo, as actividades agrícolas, os núcleos habitacionais e as fábricas desenvolveram entre si estreitas ligações”, esclarece o arquitecto, adiantando que o crescimento económico das últimas décadas originou um “conjunto de infinitos fragmentos rurais e urbanos”.

O investigador admite que, “além da indispensável atenção para zonas específicas a salvaguardar”, deve ser colocada especial atenção nos “valores funcionais, sociais e estéticos do território no seu conjunto”. E acrescenta: “Para além das questões estéticas e sociais (a paisagem como valor social), em termos económicos a dispersão das construções viabiliza actividades flexíveis e de pequena dimensão, mas implica uma grande extensão das redes infra-estruturais, cujos custos acrescentados acabam por incidir sobre a colectividade”.

A escola de arquitectura promove, na próxima terça-feira (18h), um debate em redor do projecto Duas Linhas, com a presença de Pedro Campos Costa e Nuno Louro. Uma oportunidade para se analisar, como sublinha Vincenzo Riso, o quanto “o território é um bem limitado e não renovável e, no longo prazo, a urbanização difusa vai acabar por tornar-se insustentável”. Há forma de travar esta tendência? “Acima de tudo, trata-se de um problema cultural, que também envolve modelos de desenvolvimento económico; talvez não seja por acaso que todos os países da Europa do Sul sofrem deste tipo de problema, muito mais do que os da Europa do Norte”, vinca o professor da Universidade do Minho.

Prevenir os riscos

Se a receita para o desordenamento passa pela contenção urbanística, a concentração no litoral não merece crítica de João Alveirinho Dias, especialista em dinâmica costeira, desde que “a construção respeite o funcionamento natural dos sistemas”. Para este investigador, não há problema no aproveitamento da longa faixa de costa do país e “a única restrição que existe é fundamentalmente não se dever construir em zonas de risco”. Junto ao litoral, explica, “há várias zonas que são muito dinâmicas e, por isso, aí não devia haver qualquer construção”.

O mesmo especialista, ligado à Universidade do Algarve, destaca a ria Formosa como uma das zonas no Sul do país onde a situação “é extremamente problemática”, devido às ameaças que as pressões imobiliária e turística colocam à preservação da frágil língua de areia que separa a ria do mar. “O turismo de massas é muito predatório dos ecossistemas”, alerta. A norte, o cordão dunar da lagoa de Aveiro também deve ser preservado de edificações.

Ria Formosa

Ria de Aveiro

Os cuidados devem ser estendidos às zonas de costa escarpada. “As arribas estão a evoluir e a recuar. Se construirmos no topo da arriba estamos a arranjar problemas para o futuro”, avisa Alveirinho Dias, que reafirma não temer a litoralização se não se fizer através de uma ocupação desregrada, como aconteceu no Algarve. Caso contrário, para utilização apenas sazonal, “estaremos a fazer cidades-fantasma”.”

Por Luís Filipe Sebastião, Público de 23/Maio/2010

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Dia Europeu dos Parques Naturais – Espécies Invasoras na Madeira

Posted in Escola, Notícias by Artemisa on 24 de Maio de 2010

Segundo dados da União Internacional da Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, quase 12% da superfície terrestre beneficia actualmente de protecção ambiental, tendo o estatuto de parque nacional, reserva natural, área de paisagem protegida ou outro semelhante. O seu principal objectivo é diminuir o impacto das actividades humanas para salvaguardar os habitats naturais e a continuidade das espécies.

As áreas protegidas em Portugal e nos arquipélagos da Madeira e Açores já foram alvo de um outro post, pelo que não me vou alongar na repetição de informação, de qualquer forma e no dia em que se comemora o Dia Europeu dos Parques Naturais, além de se comemorar também o Ano Internacional da Biodiversidade,  não poderia deixar passar a entrevista publicada hoje, ao Jornal da Madeira do Director do Parque Natural da Madeira, Paulo Oliveira a respeito das espécies invasoras na ilha enquanto problema principal e central de conservação.

“JORNAL da MADEIRA – Este ano assinala-se o Ano da Biodiversidade. Como é que o Parque Natural está e vai comemorar a efeméride?
Paulo Oliveira – Já tive a oportunidade de dizer, um pouco a brincar e muito a sério, que para quem trabalha nesta área todos os anos são anos da biodiversidade. No concreto este é o ano ideal para aproveitar uma maior receptividade da envolvente (pessoas, media, empresas etc) para sublinharmos a importância de que se reveste a conservação da biodiversidade para o nosso bem-estar.

JM – A Biodiversidade apela a um desenvolvimento sustentado. Acha que é isso que acontece na Madeira? Porquê?
P. O. – A Madeira tem sabido preservar a sua biodiversidade numa perspectiva de desenvolvimento sustentado. O grande exemplo disso é a utilização turística que tem sido feita em áreas potencialmente sensíveis como a Laurissilva e áreas protegidas como o Garajau ou as Desertas.
Tem sido permitido o usufruto regrado desta áreas com o consequente retorno económico para os diferentes agentes envolvidos.

JM – A Madeira tem muitas espécies em extinção no território do Parque Natural? Quais e porquê? O que se deverá fazer para diminuir ou eliminar esse risco de extinção e para conservar as espécies?
P. O. – A Região não tem espécies em extinção! O que existem são algumas espécies/habitats que apresentam estatutos de conservação menos favoráveis sobre as quais incidem intensos programas de recuperação. As emblemáticas Freira da Madeira e Lobo Marinho são dois bons exemplos de espécies em vias de recuperação.

JM – O Parque Natural tem necessidade de ser redimensionado ou está bem como está?
P. O. – O Parque Natural da Madeira ocupa dois terços da Ilha da Madeira. Esta taxa de ocupação do território de uma ilha com a densidade populacional da Madeira, por parte de uma área protegida é seguramente caso único no Mundo e deverá ser mantido para bem da nossa biodiversidade, economia e bem estar.
Pontualmente existem algumas situações que podiam ser revistas o que seguramente acontecerá. Isso se se assumir como uma prioridade.

JM – As Selvagens e as Desertas fazem parte da área de Parque Natural. Como é o seu estado, atendendo aos índices de biodiversidade e conservação da natureza? Que projectos estão previstos para ali?
P. O. – Estas Reservas estão sob a jurisdição do Serviço do Parque Natural da Madeira. A biodiversidade das Selvagens e das Desertas tem beneficiado bastante com os sucessivos projectos de conservação aí implementados, dos quais se destacam os esforços de erradicação de espécies invasivas de plantas e animais.

JM – O que pode garantir, no futuro, a biodiversidade madeirense?
P. O. – A continuidade do esforço técnico efectuado com o sempre indispensável envolvimento e empenho politico, que, diga-se claramente, nunca tem faltado nesta matéria.

JM – Que papel deverá ser exercido pelos vigilantes da Natureza? Quantos são? O actual número é suficiente para acudir às necessidades?
P. O. – Os Vigilantes da Natureza são agentes de conservação da natureza. Compete-lhes divulgar, sensibilizar e acompanhar todos aqueles que exercem as suas actividades, de lazer ou profissionais, em áreas sensíveis.
Apesar de também terem uma vertente de intervenção directa na prevenção de infracções, têm um papel complementar e de apoio a outros corpos mais vocacionados para este tipo de intervenção, como seja, o Corpo de Policia Florestal. Actualmente existem 37 vigilantes no quadro, perspectivando-se o reforço deste Corpo com mais 4 elementos para breve. A dedicação e o empenho destes profissionais faz com que o número existente seja suficiente para acudir às principais necessidades.

JM – As espécies invasoras, tanto animais como vegetais, já ameaçam o ecossistema madeirense? O que se poderá fazer para contrariar essas pragas e como evitar que elas entrem no nosso território?
P. O. – As espécies invasoras são o maior problema de conservação dos nossos tempos. Globalmente afectam inúmeros ecossistemas e a Madeira não é excepção. Na vertente do combate a este problema a Região tem em curso projectos com mais de 20 anos.
Em consequência do trabalho efectuado existe um know-how na Região que não tem par no continente Europeu. O SPNM tem sido chamado a participar como consultor em múltiplos projectos que envolvem espécies de vertebrados invasores.
Uma vertente importante, no combate a este tipo de espécies, é a prevenção através da existência de um quadro legal adequado que regule a sua entrada e detenção. A legislação que regulamenta a entrada de espécies animais na Região é extremamente restrita e tem sido bem aplicada pelas diferentes entidades com competência para a sua aplicação.

JM – A Lagoa do Lugar de Baixo é um habitat privilegiado. Como é que a Região poderá valorizá-lo?
P. O. – É importante desmistificar a importância da Lagoa do Lugar de Baixo. Esta Lagoa não constitui um habitat privilegiado. No contexto dos habitats importantes existentes na Região esta lagoa não tem qualquer expressão ou importância.
A conservação desta diminuta área não tem qualquer impacto sobre nenhuma espécie com importância num contexto Europeu (ou sequer nacional). Ocorrem aí alguns indivíduos de espécies migradoras pouco usuais nestas paragens, cujo registo só tem interesse para aqueles que fazem da observação de aves o seu passatempo.
De forma objectiva a verdade é que o interesse para a conservação da natureza desta área é nulo. Por outro lado, por força das infraestruturas aí existentes e das fáceis acessibilidades que proporciona, tem um elevado potencial para a educação ambiental.
Neste enquadramento acredito que o trabalho a ser desenvolvido aí deve continuar; é por aqui que tem lugar a sua valorização.

JM – O turismo de natureza é apontado como tendo um grande futuro. Qual é a sua opinião e como é que se poderá interligar esse factor com a necessidade de proteger as espécies e os locais?
P. O. – Eu acredito que o turismo de natureza afigura-se como o grande sustentáculo económico do esforço de conservação efectuado na Região.
Se forem tomadas opções estratégicas nesse sentido é possível que este esforço seja auto sustentado sem penalizações para o utilizador, que aliás, hoje em dia já está disposto a pagar para ter acesso a estes locais privilegiados.
Eu acredito que temos que apostar num modelo de gestão baseado em áreas protegidas com elevados níveis de visitação e consequente elevado retorno económico para todos os agentes envolvidos, nos quais obviamente se incluem as entidades gestoras destas áreas. A compatibilização com a preservação das espécies e habitats é simples e passa pela criação de regras claras que definam locais onde a actividade humana regrada possa ocorrer.

JM – Para quando uma listagem completa das espécies existentes na Região?
P. O. – Esta listagem já existe (desde 2008) e resulta de um trabalho coordenado pela DR do Ambiente. Está disponível em livro e o seu download disponível de forma gratuita na internet.

JM – O Porto Santo também terá projectos de conservação? Quais?
P. O. – O grande projecto de conservação da natureza do Porto Santo começou com a criação da Rede de Áreas Marinhas Protegidas do Porto Santo e pela classificação, na ilha e ilhéus adjacentes, de duas Zonas Especiais de Conservação da Rede Natura 2000.
Os Planos de Ordenamento e Gestão destas áreas apontam para que os projectos de conservação dêem grande prioridade à recuperação de habitats através da erradicação/controlo de espécies de plantas e animais introduzidas.

JM – A Freira da Madeira, o pombo trocaz e a manta são algumas das aves que têm mecanismos de protecção. São para continuar? Que outras aves podem ser incluídas no rol?
P. O. – As espécies apontadas são só alguns exemplos daquelas abrangidas pela nossa estratégia de conservação da natureza. Penso que de uma forma global as aves são um grupo muito bem protegido na Região e não existe espaço nem necessidade para dar prioridade ao aumento da nossa intervenção neste campo. Ao nível dos vertebrados penso que um grupo que merece a nossa atenção é o dos morcegos. Aqui estamos claramente a falar de espécies que necessitam de maior atenção.

JM – Que projectos inovadores serão lançados, nos próximos anos, pelo Parque Natural?
P. O. – Eu pessoalmente gostava que a marca da inovação e da diferença viesse de projectos que conduzissem a uma conservação da natureza participada por todos e auto sustentada. É no contexto desta Visão que irão surgir os nossos próximos projectos.

JM – O que se poderá fazer mais para sensibilizar as pessoas para a protecção da natureza e para a biodiversidade?
P. O. – Enviar um convite para visitarem, numa perspectiva de lazer, as nossas áreas protegidas. Enviar um convite para usufruírem da natureza e da nossa biodiversidade. Ter uma biodiversidade rica desligada das pessoas é como ter uma biblioteca onde os livros não podem sair das prateleiras.
Não existe melhor sensibilização do que desmistificar a velha mentalidade de que por um lado está a conservação da natureza e por outro as pessoas! Se conseguirmos estabelecer uma relação directa entre pessoas e biodiversidade a protecção do nosso património natural está garantido e, só na Região, teremos cerca de 280.000 vigilantes da natureza!”

Miguel Angelo, Jornal da Madeira, 21/Maio/2010

Para informação mais detalhada poderá consultar o site do Parque Natural da Madeira, clicando aqui.

Nasceu a Primeira Célula Artificial

Posted in Notícias by Artemisa on 21 de Maio de 2010

Foi no J. Craig Venter Institute em Rockville, Maryland, e San Diego, California nos Estados Unidos que nasceu hoje a primeira célula completamente sintética. É a primeira vez que um cientista cria uma forma de vida sintética, cujo material genético provém de quatro produtos químicos.

Após 15 anos de investigação, Craig Venter e a sua equipa conseguiram fabricar em laboratório as unidades básicas do ADN de uma bactéria (Mycoplasma mycoides) e introduzir esse material sintético numa outra célula receptora de espécie diferente (Mycoplasma capricolum). Sem qualquer vestígio genético anterior, formou-se na célula receptora a nova espécie em poucos segundos. Depois da descodificação do genoma humano, há dez anos, a descoberta de Craig Venter volta a levantar questões éticas e filosóficas em torno do conhecimento científico. Se for possível, devemos nós melhorar o nosso código genético?

Entre a comunidade científica as reacções dividem-se. Há cientistas que reconhecem a proeza técnica de sintetizar a maior parte do ADN e chegar à precisão suficiente que permite substituir o próprio ADN da célula. Mas, por outro lado, há implicações no campo da Biologia com vantagens indiscutíveis. A mesma técnica de laboratório pode ser usada para fazer combustíveis limpos, para tornar a água potável ou acelerar a produção de medicamentos,  desenvolver algas capazes de capturar CO2 e convertê-lo em hidrocarbonetos que podem ser processados nas refinarias. As possibilidades são infinitas…

Lado a lado com a ciência anda a religião que não tardou em dar a sua opinião na matéria. A Igreja Católica manifestou a sua perplexidade e inquietude perante o anúncio que abre caminho à fabricação de organismos artificiais.

“O Homem vem de Deus mas não é Deus: continua a ser humano, a quem é possibilitado criar vida através da procriação e não mediante a criação artificial” (Bispo Domenico Mogavero).

Ética, Moral e Ciência novamente a dividir opiniões e o básico vem ao de cima, se for usado da forma correcta será muito bom, caso contrário, entramos nas fronteiras do perigoso. Não será fácil estabelecer as fronteiras…

Gibson, D. G., J. I. Glass, C. Lartigue, V. N. Noskov, R.-Y. Chuang, M. A. Algire, G. A. Benders, M. G. Montague, L. Ma, TM M. M. Moodie, C. Merryman, S. Vashee, R. Krishnakumar, N. Assad-Garcia, C. Andrews-Pfannkoch, E. A. Denisova, L. Young, Z.-Q. Qi, T. H. Segall-Shapiro, C. H. Calvey, P. P. Parmar, C. A. Hutchison III, H. O. Smith, and J. C. Venter. 2010. Creation of a bacterial cell controlled by a chemically synthesized genome. Science, Published online May 20 2010.

Para ler o artigo original publicado na revista Science, clique aqui.

À Minha Mãe

Posted in Pessoal by Artemisa on 2 de Maio de 2010

Hoje também estou longe minha mãe e não posso dar pessoalmente o beijo e o abraço apertado que gostava de dar…

Um dia, se for mãe, quero sê-lo como o foste e és…mas não sei se vou conseguir!

O beijo e o abraço apertado vão ficar em palavras.

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Indisciplina na Escola

Posted in Escola, Notícias by Artemisa on 2 de Maio de 2010

Luís Picado, especialista em Psicologia da Educação e coordenador do Instituto Superior de Ciências Educativas, no seu ensaio intitulado “A Indisciplina em Sala de Aula: Uma Abordagem Comportamental e Cognitiva”, diz que “está nas mãos dos professores e da escola acabar com os casos de indisciplina pois ambos são responsáveis por boa parte dos maus comportamentos que os alunos têm dentro da sala de aula.

Defende que muitos dos problemas têm por base a incapacidade da classe docente de encontrar novos modelos de convivência escolar: “Os professores são os responsáveis pelos problemas de indisciplina em sala de aula, mas não são os culpados por todas as situações de indisciplina em sala de aula. Pode parecer uma imagem demasiado forte, mas não me importo de a usar se isso contribuir para alertar para este fenómeno”.

Muitas das dificuldades que surgem na sala de aula relacionam-se directamente com a autoridade do professor e com a relação que mantém com o aluno. No estudo, Luís Picado alerta para o facto de boa parte dos conflitos resultar da incapacidade que o professor tem de ouvir os pontos de vista dos seus alunos. Definir um conceito de indisciplina que seja comum para todos os docentes é outro embaraço que propicia um terreno fértil para comportamentos problemáticos dos alunos. É essa falta de coerência, diz o psicólogo, que leva as crianças e os adolescentes a testarem diferentes comportamentos em cada sala de aula para ver os que são ou não tolerados.

Tudo isso acaba por ser uma consequência dos tempos que correm. As relações na escola tornaram-se mais conflituosas e os professores não souberam adaptar-se às novas realidades: “Refiro–me a novas exigências, como a alteração constante de saberes e metodologias, a perda de valores de referência, as mudanças nas estruturas familiares, a massificação do ensino ou a multiculturalidade e a exigência de inclusão.” A sobrecarga de trabalho, a desvalorização social do estatuto do professor ou as características pessoais são algumas das razões que explicam igualmente o comportamento dos alunos e até a noção que as crianças têm hoje da figura do professor.

A própria organização e as práticas das escolas são determinantes para o sucesso ou insucesso no combate à indisciplina, esclarece o psicólogo: “Currículos considerados pelos alunos pouco importantes para as suas vidas, horários desajustados, deficientes condições das salas, mau planeamento das aulas, marcam todo o processo de ensino e são responsáveis por problemas comportamentais.” Os professores não estão preparados para gerir esses conflitos. “Os cursos de formação deveriam ensinar os futuros docentes a serem professores, explicando como funcionam as escolas, ajudando a compreender o que é a infância e a adolescência, ensinando a falar para a turma ou para um aluno em particular, a resolver conflitos e a pensar soluções.”

Para muitos docentes este ensaio é um incómodo surgindo e alertam para as condicionantes da profissão. “É preciso ver que cada professor chega a ter quatro e cinco turmas e é muito difícil estabelecer uma relação individual com cada um deles”, avisa Paulo Guinote, autor do blogue “A Educação do Meu Umbigo”. Lidar com os casos de indisciplina depende sobretudo das características individuais dos professores: “Nem todos têm capacidade de liderança”, esclarece o professor do ensino básico, acrescentando que as condições físicas são determinantes: “Muitas vezes é só uma questão de tom de voz, de carisma. Às vezes basta ser mulher para se ter dificuldade em mediar os conflitos entre alunos”.

António Couto dos Santos, ex-ministro da Educação no governo de Cavaco Silva, aponta outros factores que contribuem para a indisciplina na escola: “A primeira razão são os pais que se demitem do seu papel, estando os professores pressionados a colmatar essa lacuna.” As políticas e a organização escolar são outros aspectos que facilitam os maus comportamentos dos alunos: “Os professores são confrontados com dezenas de circulares contendo orientações contraditórias que tanto chegam do ministério como das direcções regionais ou da própria escola e isso faz com que se sintam completamente perdidos”.

Para quem estiver interessado ler o estudo por inteiro, deixo aqui o link.

A Indisciplina em Sala de Aula: Uma Abordagem Comportamental e Cognitiva

A indisciplina nas escolas é um tema frequente da qual quase todos falam e sobre o qual quase todos têm a sua opinião e palpite. Deixo aqui outra perspectiva dada no programa da Sic Notícias, Plano Inclinado do dia 24/04/2010, com Nuno Crato, Medina Carreira e Paulo Guinote.

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